VEJA Brasília


icone:Aeroporto icone:Transito
Tempo em
,
ºC    ºC

Editorial

 

Home > Revista > Edição nº 127 > O rabo do pacu


29 de Abril de 2009
Crônica

O rabo do pacu

Dora Kramer

Minha penúltima lembrança de Dante de Oliveira (1952-2006) é um chavão, desses coletivos, bem senso comum mesmo: a Emenda Dante, que devolvia ao brasileiro o direito ao voto direto. Apresentada em 1984, derrubada pelo Congresso quase todo obediente ao regime militar, deu impulso à primeira mobilização popular pelo fim da ditadura, a campanha das Diretas Já.

E isso tem a ver o que com gastronomia, o assunto que nos une neste instante?

Chegaremos lá, na última lembrança que tenho de Dante, vinte anos depois, já então governador de Mato Grosso, disputando espaço com um pacu assado, uma travessa de piraputangas desossadas e um pintado na brasa.

Antes, um parêntese. Brasília é uma cidade de bons restaurantes, mas o poder não os frequenta para comer. Do ponto de vista da política, os melhores não são necessariamente os que atendem com mais competência aos ditames do apetite, e sim aqueles onde as excelências se entregam mais à vontade ao exercício da inconfidência e – por que não dizer? – ao ofício da intriga.

Comida estonteante onde há, sempre, é na casa do Moreno. Jorge Bastos Moreno, jornalista anfitrião de todos os matizes, uma espécie de arauto do pecado da gula, cujos convidados são arrastados para léguas de distância da temperança por obra de Carlúcia, a arquiteta do forno e do fogão.

Destituídos de livre-arbítrio, todos os que porventura não se derem conta do perigo são levados às profundezas da perdição. Materializada na farofa de banana, na carne-seca desfiada, no arroz bem molhadinho, na fartura do feijão-fradinho engrossado com potentes nacos de paio, na picanha temperada com alho um pouco além, mas adequadamente na medida.

No cozido de esquecer a casa da mãe, no bife acebolado de desqualificar os experimentos de vidas passadas, na couve verde e crocante cortada feito navalha, no ovo frito de gritar por Jesus, o que é isso? No picadinho de rezar salve-rainha, na perfeita consistência do risoto de pedir, por clemência, valha-me, Deus!

Depois de tudo, já posto quase à morte o pobre mortal, chega de novo a danada, ladina, a servir as sobremesas. Juramos: agora chega, há limites.

Reformulamos, porém, ante a paisagem de estímulo à esganação, e vamos a elas.

Sorvetes pedaçudos, frutas, goiabada cascão (com muito queijo), muuuusse de chocolate, calda quente em abundância, bolo de massa bem fofa, são 3 horas da manhã e, nessa altura, já não há mais salvação. Nada resta. Só o conforto do autoengano: foi a última vez!

É mesmo? Não mesmo.

Toca o telefone, 11 da manhã, Moreno do outro lado da linha, e voltamos ao senhor Diretas Já, mais ou menos dois anos antes de partir.

– Mandei vir um pacu de Cuiabá, Carlúcia vai assar e o Dante vem comer. Tens compromisso?

Se tivesse, "Carlúcia vai assar" seria o suficiente para desmarcar. Soou bem mais atraente que "Dante vem comer".

Com esse espírito, evidentemente, o governador já entrou no jogo perdendo para o pacu. Justifica-se: assado inteiro, com cabeça, rabo e farofa dentro. Uma covardia completa.

Eram seis pessoas, contando com o governador, que, logo se viu, não estava ali para comer. Estava interessado em vender outro tipo de peixe: a administração de Mato Grosso em seus mínimos detalhes.

Projetos, números, índices, produção, metas, dados de exportação e importação, minudências, tudo sobre gerência. Dante de Oliveira falou por uma, uma hora e meia, o almoço inteiro.

O governador ali tentando captar uma nesga de interesse pela pujança mato-grossense e eu aqui tecendo loas ao rabo do pacu, em total desatenção, na maior falta de educação.

Não tenho, confesso, lembrança precisa dos fatos. O dono da casa gosta de prevenir autoridades loquazes quanto a seus feitos contando esta história para que não percam seu tempo se no menu tiver pacu. Diz que foi um vexame.


Dora Kramer é jornalista, colunista do jornal O Estado de S. Paulo
e comentarista das rádios BandNews FM e JB FM


Indique esta matéria

voltar

Busca



busca detalhada

 

RSS


copyright® editora abril s/a. Todos os direitos reservados.