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22 de Julho de 2009

Crônica

Tereza era a rainha da cozinha do padre. Em outras épocas havia empenhado seus dotes em prol da grande Emilinha Borba e, enquanto contava causos sobre a musa, ia produzindo quitutes que se podiam saborear na casa paroquial a qualquer hora do dia. Se bem que o forte mesmo, ali na Santa Rita de Cássia, era a hora do almoço. Às 12h30 tocava a campainha e chegava Lucas, advogado arrependido que vivia de brisa e pequenos rolos. Na sequência apareciam algumas mulheres, funcionárias públicas de vida alegre, e a seguir homossexuais, alcoólatras light, desempregados acomodados, vagabundos ajustados, meu pai, criatura que vinha sendo processada por um crime nada católico, e eu, que vivia por ali mesmo e só precisava descer dois andares, pois morava no 3º piso daquela torre de igreja (explico: certo dia apareci na porta do padre, me convidei para ser sua hóspede, ele aceitou, eu fiquei um ano). Havia também gente de bem da sociedade campineira que vez ou outra dava o ar da graça. Tereza cozinhava para toda a gente, quanto mais chegasse, mais encantada ficava em exibir seus talentos na fartura que a coleta de uma igreja, em bairro nobre, permitia. Não sei como saía tanta comida de uma minúscula cozinha com uma única geladeira. Imaginava que Tereza fosse uma espécie de Mary Poppins, com aquela bolsa mágica de onde surgiam armários, abajures, vasos floridos e o necessário para decorar toda uma casa; a cozinha da Tereza era páreo para a Poppins. Dali brotavam fartas bacalhoadas, bobós apimentados, fofos suflês, feijoadas completas, vatapás carregados no dendê, dobradinhas, rosbifes com batatas coradas e sobremesas de comer rezando. Pena que, naqueles almoços, de católico e rezador só mesmo o padre; os outros, que me lembre, não tocavam o pé na missa. Nem eu. Houve um dia em que apareceu o arcebispo, deixando o mundo tenso com sua visita solene. Só quem se sentiu à vontade foi o próprio religioso, que, de tanto beber do vinho do padre, se esqueceu que era homem de princípios e deu para passar a mão no traseiro das desavisadas. As moças, espantadas com o disparate, não sabiam como reagir; pense bem, não dá para lançar um tapão em arcebispo de igreja. Ou dá?

Os repastos aconteciam todos os dias pontualmente às 13 horas. Chegavam os amigos sem aviso, Tereza colocava a comida na mesa e quem estivesse se sentava para comer. E rir, porque aquilo era divertido como deve ser uma refeição em casa de padre: há que beneficiar não só o corpo mas também, e sobretudo, a alma. Dizem que em festa boa há de ter gente variada, o padre sabia, e seus almoços eram festa de primeira! Ali se falava de tudo sem medo, porque o anfitrião era livre de falsas morais – um tipo generoso, verdadeiro. A seu modo, suave, ia ensinando que o homem bom é aquele que deixa o coração disponível para as discrepâncias dos semelhantes (sempre tão desagradavelmente dessemelhantes). Deve ter compreendido, pelo que ouvia no confessionário, que os mais pios também perambulavam por quartos escuros na prática de ordinarices. Então, nós ali, os que sentávamos à sua mesa, apenas parecíamos mais vulneráveis porque nossos atalhos se expunham à vista dos outros pecadores.

Um dia estávamos à mesa e surge Pedro – espécie de motorista faz-tudo, dublê de sacristão –, e esbaforido informa:

– Padre, Seu Fulano está ao telefone e diz que precisa falar com urgência!

– Mas, homem de Deus, eu estou almoçando.

– Eu sei, eu sei, disse que o senhor estava almoçando ma...

– Você disse que eu estava almoçando?! Quantas vezes vou ter de explicar que padre não almoça, que padre não tira cochilo, que padre não descansa? Padre reza missa!

Aprendi! E hoje, passadas algumas décadas, faço igual em minha casa. Quando não quero atender, está estabelecido:

– Não estou dormindo, nem descansando ou vendo um filme. Ator não dorme, ator está no estúdio gravando, no set filmando ou no palco atuando!

E alguns atores ainda escrevem crônicas para revistas de sua cidade natal – vinho rosé na taça e doce de queijo em calda para lambiscar no prato. Receita de Tereza, experimente:

1/2 kg de queijo meia-cura ralado fino;

8 colheres de sopa de amido de milho;

2 ovos.

Em um recipiente, misture tudo até formar uma massa consistente e lisa. Modele em forma de bolinhas com 3 centímetros de diâmetro. Reserve.

Faça uma calda rala com açúcar. Quando estiver pronta, deposite as bolinhas com cuidado e deixe ferver por três minutos, mexendo de vez em quando. Apague o fogo quando as bolinhas estiverem firmes e brilhantes. Aguarde até esfriar e... hummmmm, delicie-se.

 

Maitê Proença é atriz e escritora


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