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10 de Junho de 2009

Crônica

Malvino Salvador

Eu era menino e morava no bairro do Parque Dez. Todos os dias, não via a hora de chegar em casa depois da aula e chamar os amigos para brincar. Lembro de ficar um tempão em cima das árvores, de soltar papagaio no telhado (e não pipa!), de tomar banho de chuva, de descer a ladeira com carrinho de rolimã (feito por papai)... Brincávamos de guerra de mamonas (fazíamos até trincheiras de barro para nos proteger do "exército inimigo"), jogávamos bola de pés descalços no asfalto...

Quando não tinha amigo na rua, também não era ruim. Podia ficar no telhado a contemplar o dia ou tinha as formigas como companheiras. Colocava as saúvas contra as pretas para lutar. E as saúvas, mesmo com aquele tamanho todo, sempre se davam mal! Coitadinhas delas, saíam sem pernas, às vezes até sem cabeça.

Aquela meninada toda acabou aproximando os vizinhos adultos. A maioria era estrangeira ou do sudeste do país. Estava ali para trabalhar na Zona Franca. E por volta dos meus 8 anos, na época das festas juninas, alguém lançou a ideia de fazer uma festa no conjunto. Cada família seria responsável por um prato de comida. Armamos de véspera os preparativos. As mães fizeram a comida, os pais montaram as barracas... Nós, crianças, colamos as bandeirinhas, ensaiamos os passos da quadrilha... Todos nos mobilizamos para o grande dia!

A festa era na rua e a movimentação começou logo no sábado de manhã. Lembro do porco sendo temperado e depois assando inteirinho na brasa. A receita vinha do tio Luís Cervejeiro, um paulista brincalhão que adorava divertir a molecada. Levava-nos em cima de seu jipe para passear e tomar sorvete. Tinha esse apelido não por ser pinguço. Era degustador da Antarctica e, por isso, também providenciou para a festa os barris de chope e os guaranás. Meu vizinho de frente, mineiro, o tio Jaime, fez a buchada à sua moda. A única que lembro de ter gostado na vida. Meu vizinho de lado, tio Liong, era sul-coreano e levou os rolinhos primavera. Tio Ermano e tia Enza, nossos vizinhos italianos, fizeram a lasanha mais deliciosa que já provei. Lá em casa, minha avó preparou pato no tucupi, que sabia fazer como ninguém! O prato, delicioso, que causa um leve formigamento na língua, era um dos mais aguardados. Tanto que foi o primeiro a acabar. Alguém assava o tambaqui e meu pai ficou com o trabalho de catar as espinhas para mim e minha irmã. A tartaruga estava uma delícia! Na mesa ainda havia tapioca, pupunha, tucumã, doce de cupuaçu, graviola, açaí... Nossa mesa era um banquete.

Ficamos até a madrugada e depois, ao acordar, no domingo, até a noitinha. Aquele dia foi tão importante na nossa vida que começamos a organizar um almoço por mês na rua, até o fim do ano, no Natal. E por mais alguns anos foi assim.

Depois... fomos crescendo, alguns amigos se mudaram...

Hoje, fecho os olhos e parece que tudo continua vivo. Ainda posso ouvir tia Anik, belga, casada com tio Carlos, italiano, chamar os filhos. Ela gritava de casa para a rua:

– Fannyyyyyyyyy! Sammyyyyyyyyy!

– Qu’est-ce qu’il y a, ma mère?

– Vient ici!

Lembro dos brinquedos maneiríssimos que meu amigo Gregório trazia da Suécia. Lembro de acampar na mata com Renato, com Eduardo... Da piscina do Aldo Jr...

O Conjunto Pindorama, hoje vazio, sem crianças na rua, nem parece que outrora vivia repleto de algazarra, de gritaria, de gargalhadas... Tempos que não voltam mais e ficaram na minha lembrança.

 

Malvino Salvador é ator


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